A dimensão de Estratégia nas normas IFRS S1 e S2
No artigo anterior desta série sobre as normas IFRS S1 e S2, abordamos a dimensão de Governança, com foco nas estruturas responsáveis pela supervisão dos riscos e oportunidades de sustentabilidade e de mudança climática. A dimensão de Estratégia aprofunda essa discussão ao trazer o foco para a forma como esses fatores são incorporados ao modelo de negócios, ao planejamento estratégico e às decisões financeiras.
Mais do que uma evolução técnica dos relatórios, a dimensão de Estratégia materializa uma demanda recorrente de investidores: que impactos atuais e potenciais de riscos e oportunidades de sustentabilidade no desempenho financeiro presente e futuro das companhias passem a ser informados e tratados como parte fundamental de seu dever fiduciário.
Nesse contexto, este artigo explora o que os IFRS S1 e S2 exigem especificamente na dimensão de Estratégia, como essas exigências começam a se refletir na prática do mercado brasileiro, e de que forma uma abordagem estratégica robusta pode ir além do cumprimento regulatório, contribuindo para geração de valor, resiliência corporativa e vantagem competitiva.
O que a dimensão de Estratégia prevê
A dimensão de Estratégia define como as entidades devem explicar os efeitos dos riscos e oportunidades ligados à sustentabilidade e ao clima na estratégia corporativa, modelo de negócios e perspectivas financeiras. O foco é prospectivo e econômico: demonstrar como esses fatores influenciam decisões estratégicas e a criação de valor ao longo do tempo.
De forma transversal, a dimensão de Estratégia atua como elo entre governança, gestão de riscos e métricas, exigindo coerência entre identificação de riscos, tomada de decisão e monitoramento. A norma exige que as companhias evidenciem como a sustentabilidade está incorporada à lógica estratégica do negócio.
Do normativo à prática: como empresas estão estruturando a estratégia
As primeiras divulgações alinhadas aos IFRS S1 e S2 indicam que os relatos começam a migrar, ainda que de forma gradual, de um exercício descritivo para um instrumento de apoio à tomada de decisão. Observa-se um esforço crescente para explicitar como riscos e oportunidades climáticos e de sustentabilidade influenciam prioridades estratégicas como crescimento, eficiência operacional e posicionamento competitivo.
No mercado brasileiro, os relatos já publicados de Vale e Renner evidenciam a transição para um uso mais estratégico das informações de sustentabilidade. Nesses casos, observa-se a superação de abordagens extensivas de materialidade em favor de análises mais seletivas, orientadas pelo potencial de riscos e oportunidades de afetar decisões estratégicas e resultados financeiros.
A Renner, por exemplo, articula riscos climáticos físicos e de transição à sua estratégia de eficiência operacional e expansão sustentável, traduzindo exposições da cadeia de fornecedores, pressões regulatórias e custos associados a emissões em decisões sobre logística, relacionamento com fornecedores, investimentos e alocação de capital. De forma semelhante, a Vale passa a relacionar riscos climáticos a temas como resiliência de ativos, continuidade operacional e priorização de investimentos, sinalizando um avanço na integração entre sustentabilidade, estratégia e desempenho financeiro.
A WayCarbon tem apoiado consultivamente empresas de diversos setores a se prepararem para o reporte em 2027, e um desafio tem chamado bastante atenção: a (falta de) integração entre áreas internas – sustentabilidade, controladoria, riscos, operações etc. Em muitos casos, por exemplo, análises climáticas e estudos de risco são desenvolvidos de forma isolada e paralela aos processos formais de planejamento estratégico, o que dificulta a tradução dos resultados em decisões executivas consistentes.
Outro desafio observado está relacionado à confiabilidade dos dados, especialmente em análises de risco e de cenários climáticos. No estágio inicial de adoção, é comum o uso de premissas, modelos genéricos ou dados externos pouco calibrados à realidade da empresa. Esse ponto ganha relevância adicional diante da necessidade de asseguração das informações. À medida que o mercado avança para relatórios sujeitos a maior escrutínio, torna-se essencial que os estudos de riscos e cenários sejam robustos, bem documentados e apoiados por premissas defensáveis. A preparação para a asseguração não é apenas um requisito técnico, mas um fator-chave para a credibilidade das divulgações estratégicas e para a confiança dos usuários da informação.
Nesse contexto, coloca-se um desafio complementar para a aplicação contínua das normas: como garantir coerência, comparabilidade e rastreabilidade dessas análises ao longo do tempo quando premissas e estimativas iniciais precisam ser revistas, refinadas ou até substituídas em ciclos futuros de reporte?
Indo além do cumprimento regulatório
À medida que as empresas avançam na adequação normativa para uma aplicação mais consistente dos IFRS S1 e S2, torna-se evidente que o relato pode operar como um vetor de geração de valor, e não apenas como uma resposta regulatória. Quando riscos e oportunidades de sustentabilidade são incorporados ao planejamento estratégico, o resultado tende a ser uma base decisória, mais robusta, capaz de sustentar crescimento e resiliência em contextos de maior incerteza.
Um dos efeitos mais imediatos dessa abordagem é a melhoria da qualidade do diálogo com investidores e credores, reforçando transparência e credibilidade. A conexão entre riscos climáticos, decisões de capital e perspectivas financeiras permite uma melhor compreensão não apenas da exposição da empresa, mas da estratégia que orienta as decisões de investimento.
Outra oportunidade relevante é a antecipação de riscos financeiros associados à sustentabilidade e ao clima. Ao analisar riscos físicos extremos, dependência de recursos naturais críticos ou mudanças regulatórias, as empresas passam a testar a robustez de suas estratégias antes que esses fatores se materializem em perdas operacionais ou financeiras.
No seu primeiro relato S2, a Vale relaciona riscos físicos – como eventos climáticos extremos e disponibilidade hídrica – à resiliência de seus ativos, à continuidade operacional e à priorização de investimentos. No varejo, a experiência da Renner ilustra como análises de riscos climáticos e de cadeia de valor, quando integradas a uma visão mais clara das dependências operacionais, orientam iniciativas de eficiência logística, fortalecimento do relacionamento com fornecedores e posicionamento competitivo. Além de mitigar riscos, essas iniciativas reforçam vantagem competitiva em segmentos nos quais critérios ambientais já influenciam decisões de consumo e de investimento.
Ao exigir a conexão explícita entre sustentabilidade, estratégia e desempenho financeiro, as normas incentivam uma visão integrada de riscos e oportunidades, atuando como catalisadores de decisões mais informadas e alinhadas ao futuro dos negócios. Antecipar essa incorporação estratégica, portanto, deixa de ser apenas preparação para uma obrigação futura e passa a representar um instrumento de gestão no presente – com potencial claro de diferenciação competitiva.
Antecipação como elemento-chave da implementação
A incorporação da dimensão de Estratégia aos IFRS S1 e S2 exige que as empresas iniciem desde já uma avaliação consistente de sua aderência às normas, promovendo maior integração entre planejamento estratégico, gestão de riscos e sustentabilidade. A preparação gradual até 2027 favorece ganhos de maturidade, consistência e qualidade das informações divulgadas.
Mais do que antecipar uma exigência regulatória, avançar desde já nessa agenda é uma oportunidade de fortalecer a tomada de decisão estratégica, ampliar a resiliência dos negócios e qualificar o diálogo com investidores - especialmente quando esse processo é apoiado por análises técnicas e expertise especializada.
Referências
BRASIL. Comissão de Valores Mobiliários. Ofício Circular nº 1/2026/CVM/SNC/GNC. Rio de Janeiro, 2026
IFRS FOUNDATION. IFRS S1 General Requirements for Disclosure of Sustainability-related Financial Information. Londres, 2023
Relatório de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade referente ao IFRS S2/CBPS 02“. Lojas Renner, 2025. Disponível em: https://www.lojasrennersa.com.br/wp-content/uploads/2025/07/Informacoes-financeiras-relacionadas-a-sustentabilidade-clima-IFRS-S1-e-S2-_-CBPS-1-e-2.pdf.
Relatório de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade referente ao IFRS S2/CBPS 02. Vale, 2025. Disponível em: https://api.mziq.com/mzfilemanager/v2/d/53207d1c-63b4-48f1-96b7-19869fae19fe/8b8371ec-4385-4955-4005-e98f71863296?origin=1.
Resolução CVM nº 193/2023. Disponível em: https://conteudo.cvm.gov.br/export/sites/cvm/legislacao/resolucoes/anexos/100/resol193consolid.pdf
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