A dimensão de Gestão de Riscos nas normas IFRS S1 e S2

A Resolução CVM nº 244 reposicionou o debate sobre reporte de sustentabilidade e clima no Brasil. Ao substituir a obrigatoriedade pela lógica do “Pratique ou Explique”, a norma tornou a decisão de reportar uma escolha explícita de posicionamento perante o mercado. Mas, como argumentamos em artigo recente, essa maturidade não se tornou opcional – e é nesse contexto que a dimensão de Gestão de Riscos ganha ainda mais relevância.

No artigo anterior, abordamos como a dimensão de Estratégia tem foco na incorporação dos riscos e as oportunidades de sustentabilidade e clima ao modelo de negócios, planejamento estratégico e decisões financeiras. A dimensão de Gestão de Riscos avança nessa discussão ao trazer o olhar para os processos: como as empresas identificam, avaliam, priorizam e monitoram esses riscos e oportunidades? Esses processos operam de forma integrada ao restante da gestão corporativa de riscos?

O foco deve estar no processo e na integração

O objetivo das divulgações de riscos é duplo: i) que os usuários dos relatórios financeiros consigam entender como os riscos e oportunidades são identificados, avaliados, priorizados e monitorados – e, a partir disso, ii) avaliar o perfil geral de riscos da organização e a robustez dos processos por trás dessa gestão.

As empresas devem demonstrar não apenas quais exposições foram mapeadas, mas como essa identificação ocorre, com quais dados e critérios, e como cada risco é avaliado em termos de natureza, probabilidade e magnitude. O foco é processual. Por exemplo, no âmbito climático, isso significa explicitar quais cenários orientaram a identificação – como os do IPCC ou NGFS – e como eles informaram a distinção entre riscos físicos e de transição, com qual frequência esses riscos são revisitados e se os processos evoluíram em relação ao período anterior.

Além dos riscos, as normas exigem que as empresas descrevam os processos utilizados para identificar, avaliar, priorizar e monitorar também as oportunidades relacionadas à sustentabilidade e ao clima. Esse aspecto é frequentemente negligenciado nas primeiras divulgações, quando a atenção tende a se concentrar nas exposições negativas, mas tem relevância normativa e estratégica equivalente. Assim, a dimensão busca aferir a qualidade e a maturidade do mapeamento de riscos e oportunidades.

Ademais, as normas também tratam da integração, questionando se, e como, esses processos dialogam com a estrutura corporativa de gestão de riscos da entidade. Não basta ter processos, é preciso demonstrar que eles operam de forma sistêmica e conectada à governança corporativa. Isso significa, na prática, que os riscos climáticos devem entrar na mesma matriz que orienta decisões de investimento e alocação de capital – e não operar como um exercício paralelo ao ERM corporativo. As normas ainda reforçam que, quando a supervisão dos riscos é gerenciada de forma integrada, a empresa deve apresentar divulgações integradas, evitando seções duplicadas por cada risco ou oportunidade identificado.

Gestão de riscos na prática

As primeiras divulgações brasileiras alinhadas ao CBPS 01 e CBPS 02 / IFRS S1 e S2 revelam abordagens distintas para a gestão de riscos climáticos, mas com um ponto em comum: a preocupação em demonstrar não apenas quais riscos foram identificados, mas como esse processo funciona e como ele se conecta à estrutura corporativa de tomada de decisão.

  • Vale: A Vale descreve uma estrutura de gestão de riscos climáticos formalmente integrada ao seu processo corporativo de ERM. Os riscos climáticos são priorizados dentro da mesma matriz que avalia outros tipos de risco corporativo, e as oportunidades – como a demanda crescente por metais para a transição energética – são avaliados pelo mesmo processo.
  • Lojas Renner: A Renner aborda a gestão de riscos a partir de avaliação de materialidade financeira, descrevendo como os riscos foram priorizados em relação a outros tipos de risco corporativo. A empresa ainda indica que, mesmo quando os efeitos financeiros estimados não atingiram o limiar de materialidade estabelecido, optou por divulgá-los para dar transparência ao processo.
  • Irani Papel e Embalagem: A Irani descreve uma metodologia integrada à sua Política de Gerenciamento de Riscos corporativa, com identificação e priorização conduzidas pela Diretoria Executiva e submetidas ao Conselho de Administração. A empresa destaca que as oportunidades relacionadas ao clima superam os riscos no horizonte analisado, reforçando que a gestão prevista nas normas não se restringe a exposições negativas.

Desafios recorrentes na implementação

A experiência de apoio a empresas de diversos setores na preparação para o reporte permite identificar dois desafios recorrentes na estruturação da gestão de riscos prevista pelas normas:

O primeiro é a fragmentação interna: em muitas empresas, os processos de análise climática e os processos de gestão corporativa de riscos operam em paralelo, sem articulação sistemática. O resultado são mapeamentos de riscos climáticos que não entram na matriz de risco corporativo e, por isso, não influenciam a alocação de capital nem a tomada de decisão executiva.

O segundo desafio está na confiabilidade e rastreabilidade dos dados: o uso de modelos climáticos e premissas genéricas, pouco calibrados à realidade específica da empresa, compromete a defesa das análises em processos de asseguração e na sua capacidade de apoiar decisões. A robustez metodológica das análises de risco torna-se um dos principais elementos de diferenciação para quem opta por manter o compromisso com a divulgação – e um fator cada vez mais avaliado por investidores e agências de rating.

O que uma gestão de riscos robusta entrega além do reporte

À medida que as empresas avançam na estruturação de seus processos, torna-se evidente que a dimensão de Gestão de Riscos vai além do que se divulga: ela estrutura o que se sabe. Um processo robusto de identificação, avaliação, priorização e monitoramento de riscos climáticos e de sustentabilidade gera valor concreto independentemente da obrigatoriedade de reporte.

À medida que as empresas avançam na estruturação de seus processos, torna-se evidente que a dimensão de Gestão de Riscos vai além do que se divulga: ela estrutura o que se sabe. Um processo robusto de identificação, avaliação, priorização e monitoramento de riscos climáticos e de sustentabilidade gera valor concreto independentemente da obrigatoriedade de reporte.

Antecipação de riscos antes de sua materialização em perdas

O principal benefício de um processo estruturado de gestão de riscos climáticos é a capacidade de identificar exposições antes que se traduzam em interrupções operacionais, danos a ativos ou custos regulatórios inesperados. Empresas com esse processo maduro saem de uma postura reativa, que responde ao evento quando ele já ocorreu, para uma postura prospectiva, que orienta decisões de investimento, localização de ativos e relação com fornecedores com base em cenários antecipados.

Credibilidade junto a investidores e acesso a capital

Investidores institucionais, agências de rating e credores utilizam as divulgações sobre gestão de riscos como insumo para avaliar a resiliência das empresas a choques climáticos e de transição. A qualidade do processo descrito, e não apenas o resultado do mapeamento, é um sinal da maturidade da gestão corporativa.

Coerência interna entre áreas e melhoria da tomada de decisão

O requisito de integração ao processo geral de gestão de riscos promove, quando implementado de fato, uma coerência interna que vai além do reporte. Quando os riscos climáticos entram na mesma matriz de riscos que orienta decisões de investimento, expansão e alocação de capital, as áreas de sustentabilidade, finanças, operações e estratégia passam a operar a partir de uma base informacional comum, reduzindo o risco de decisões inconsistentes e aumentando a capacidade da empresa de responder de forma coordenada a choques externos.

Esse é, talvez, o efeito mais difícil de medir, mas o mais duradouro: a gestão de riscos climáticos bem estruturada não entrega apenas um relatório; entrega uma organização com maior capacidade de antecipar, adaptar e responder.

Antecipação como elemento-chave da implementação

A dimensão de Gestão de Riscos nas normas IFRS S1 e S2 / CBPS 01 e CBPS 02 representa muito mais do que uma lista de informações a divulgar. Ela estabelece um padrão de qualidade para os processos internos das empresas: como identificam, avaliam, priorizam e monitoram seus riscos e oportunidades de sustentabilidade e clima; com quais dados e critérios operam; e como esses processos se integram ao restante da gestão corporativa.

As primeiras divulgações brasileiras, como os cases apresentados de Vale, Lojas Renner e Irani, revelam que o caminho é possível e que há diferentes formas de estruturar esse processo de acordo com o porte, o setor e o estágio de maturidade de cada empresa. O que as três têm em comum é justamente o ponto central exigido pelas normas: a integração entre o processo de gestão de riscos climáticos e a estrutura corporativa de tomada de decisão.

Para empresas em estágio inicial, o ponto de partida é a documentação dos processos existentes e a definição de critérios explícitos de avaliação e priorização de riscos. Para aquelas com processos mais avançados, o desafio está em garantir rastreabilidade, robustez metodológica e integração formal ao ERM corporativo.

Mais do que antecipar uma exigência regulatória, avançar desde já nessa agenda é uma oportunidade de fortalecer a tomada de decisão estratégica, ampliar a resiliência dos negócios e qualificar o diálogo com investidores.

Referências

BRASIL. Comissão de Valores Mobiliários. Resolução CVM nº 193/2023. Rio de Janeiro, 2023.

BRASIL. Comissão de Valores Mobiliários. Ofício Circular nº 1/2026/CVM/SNC/GNC. Rio de Janeiro, 2026.

CBPS / ISSB. Pronunciamento Técnico CBPS 01 – Requisitos Gerais para Divulgação de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade. CVM, 2024.

CBPS / ISSB. Pronunciamento Técnico CBPS 02 – Divulgação de Informações Relacionadas ao Clima. CVM, 2024.

Irani Papel e Embalagem S.A. Relatório de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade. Exercício de 2025 (divulgação voluntária antecipada). Disponível em: https://irani.com.br/wp-content/uploads/2026/05/Irani-Relatorio-de-Informacoes-Financeiras-Relacionadas-a-Sustentabilidade-2025.pdf

Lojas Renner S.A. Relatório de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade. Exercício de 2024. Disponível em: https://www.lojasrennersa.com.br/wp-content/uploads/2025/07/Informacoes-financeiras-relacionadas-a-sustentabilidade-clima-IFRS-S1-e-S2-_-CBPS-1-e-2.pdf

Vale S.A. Relatório de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade. Exercício de 2024. Disponível em: [https://www.vale.com/pt/w/vale-divulga-seu-primeiro-relatorio-de-informacoes-financeiras-relacionadas-a-sustentabilidade].

João Henrique Bueno
Coordenador de Sustentabilidade at WayCarbon |  + posts
Victor Vieira
Analista de Sustentabilidade at WayCarbon |  + posts
Luiza Caldas
Analista de Sustentabilidade Sênior at WayCarbon |  + posts

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