Negócios resilientes: em qual fase estão as empresas brasileiras na gestão de riscos?

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Como construir negócios mais resilientes à mudança do clima? Essa foi a pergunta motivadora do episódio de setembro do WayCarbon Talks, que contou com a participação de Keyvan Macedo, Head de Negócios Globais da WayCarbon, e Daniel Carvalho, Coordenador de Mudança do Clima. A mediação é de Lauro Marins, Head de Consultoria e Soluções Digitais.

Confira a seguir os principais insights da conversa.

Maturidade das empresas brasileiras

Os especialistas avaliam que a maior parte das empresas brasileiras está na fase inicial da jornada, dando os primeiros passos na identificação dos riscos climáticos. “A percepção que eu tenho é que muitas lideranças estão esperando para ver o que acontecerá. Isso acaba não dando certo, porque esperar o evento climático se materializar pode trazer perdas inimagináveis”, diz Daniel Carvalho.

No outro extremo, gigantes de setores como financeiro, energia e varejo de moda, já realizam inventários de gases de efeito estufa e avaliam riscos associados à mudança do clima há anos. Um sinal claro de maturidade vem de empresas como Vale e Lojas Renner, que relataram às normas IFRS S2 (Requisitos de divulgação de informações financeiras relacionadas ao clima) no período voluntário.

Esses líderes já analisam cenários climáticos para riscos físicos e de transição, mensurando potenciais perdas financeiras e impactos na cadeia de valor: “A Renner, por exemplo, monitora a resiliência do fornecimento da cadeia de algodão, apresentando uma visão integrada de gestão de riscos, que também envolve a inclusão do tema na governança corporativa e nos comitês de risco”, diz Daniel.

Quais são os setores mais impactados?

Os setores com receita diretamente dependente da condição climática, como o setor elétrico e o agronegócio, são os mais afetados. “Se é projetada uma queda crônica de precipitação em diversas bacias, as regiões que possuem geração hidrelétrica significativa provavelmente irão gerar energia abaixo de seu potencial, o que impacta não só a empresa, mas todo o país. Quando chove menos, também é esperada uma perda de produtividade em culturas agrícolas, um aumento no custo de irrigação e até mesmo sua restrição”.

Contudo, eventos extremos recentes, como as enchentes no Rio Grande do Sul e os incêndios no Sudeste e Centro-Oeste, ocorridos durante períodos de El Niño, provam que nenhum setor está imune.

Como as empresas lidam com os riscos na prática?

Um erro comum no mercado é confiar exclusivamente na cobertura de seguros para mitigar perdas. Keyvan Macedo alerta que o valor das apólices tende a subir se a companhia não demonstrar capacidade de minimizar a recorrência dos eventos, podendo levar até à recusa de cobertura.

A provocação para os executivos é ir além das próprias paredes e olhar para o território estratégico. “No caso de uma unidade portuária, cabe entender a estrutura e as pessoas que estão no entorno do local diretamente por causa dela, devendo mapear as vulnerabilidades e dependências socioambientais”, analisa o executivo.

Nesse cenário, a Estratégia Nacional de Adaptação é um orientador valioso. O plano incentiva o estabelecimento de parcerias com entidades do poder público para a construção de resiliência climática e apresenta exemplos de ações, como:

  • Resiliência na Cadeia de Suprimentos: Diversificar fornecedores para evitar paralisações por eventos climáticos e exigir planos de adaptação de parceiros críticos
  • Eficiência Operacional e Reuso de Água: Implementar tecnologias de reuso de águas residuais e captação de água da chuva para reduzir a dependência de fontes públicas em períodos de seca extrema.
  • Adaptação Estrutural de Instalações: Aplicar conceitos de engenharia resiliente (ex.: telhados verdes para conforto térmico, reforço no escoamento pluvial e climatização eficiente).

Revogação não paralisou exigências

Lauro Marins alerta que mesmo com a revogação da obrigatoriedade das normas IFRS S1 e S2 pela CVM, em maio, considerado um revés para a agenda, a avaliação de riscos climáticos continuará a ser exigida pelo mercado de capitais. “É importante reforçar que mesmo que a empresa opte por não reportar, o setor financeiro seguirá fazendo essa avaliação do tema. Falamos isso com propriedade, porque trabalhamos com o setor de seguros e o setor financeiro, e eles não tiraram o pé do acelerador. A demanda tem crescido nesses segmentos”, diz.

A mensagem final do episódio é que a prevenção é essencial para a continuidade dos negócios no longo prazo, em um cenário em que as mudanças estão ocorrendo antes mesmo do que previam os modelos climáticos.

Acesse o episódio completo no YouTube ou Spotify.

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Maria Luiza Gonçalves
Jornalista e Analista de Comunicação Sênior at WayCarbon |  + posts

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