O que o mundo acima de 1,5°C exige das empresas 

Um mundo acima de 1,5°C

Em 2 de setembro de 2026, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) publicou o Limiting Overshoot, primeiro relatório dedicado às consequências de ultrapassar 1,5°C. A conclusão: a ultrapassagem deve ocorrer nos próximos anos. No cenário mais otimista, o aquecimento chega a cerca de 1,8°C antes de recuar, mas a maioria dos demais cenários indica picos mais altos. A tarefa agora é limitar a intensidade e a duração dessa ultrapassagem, com cortes imediatos de emissões de GEE, incluindo o metano, remoções de carbono bem governadas e ações de adaptação.

Os dados observados já apontam nessa direção. Segundo o Copernicus, 2024 foi o ano mais quente da série, com cerca de 1,6°C acima do pré-industrial, e a média de 2023 a 2025 foi o primeiro triênio acima de 1,5°C. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima em 91% a chance de ao menos um ano entre 2026 e 2030 superar esse patamar. Vale ressaltar que anos isolados não significam que o limite colocado pelo Acordo de Paris, que se refere à média de longo prazo, foi rompido. No entanto, as projeções de longo prazo reforçam o alerta: com as NDCs atuais, o mundo caminha para 2,3°C a 2,5°C; com as políticas em vigor, para 2,8°C (Emissions Gap Report 2025).

Isso não torna a meta de 1,5°C irrelevante. Cada décimo de grau a mais amplia perdas e o risco de pontos de não retorno, e cada ano acima do limite aumenta o volume de remoções de carbono que será necessário depois.

O papel do setor privado diante de NDCs insuficientes

A distância entre as NDCs e o que a ciência indica costuma ser lida como um problema dos governos. Essa leitura é incompleta. As metas nacionais definem a direção, mas as decisões que de fato movem as emissões, como onde investir, que tecnologia adotar e quais fornecedores contratar, são tomadas pelas empresas. Para que as emissões globais caiam 55% até 2035 em relação a 2019, como exige a trajetória de 1,5°C, o setor privado precisa ir além do mínimo regulatório.

No Brasil, a fronteira entre o voluntário e o obrigatório também está se movendo. O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) vai transformar parte dessa agenda em obrigação para os grandes emissores, e as empresas que se anteciparem terão mais tempo para planejar a transição e menor custo de adequação.

Há também um efeito de cadeia. As metas de escopo 3 de grandes compradores e as exigências climáticas de bancos e investidores levam a cobrança a fornecedores que nunca assumiram compromissos públicos. Para boa parte das empresas brasileiras, a pressão por implementação deve chegar antes por clientes e financiadores do que pela regulação. Quem chegar a essa conversa sem inventário consistente e sem plano, ou apenas com uma meta declarada, tende a perder espaço em contratos e em condições de financiamento.

O problema não é falta de meta

Os compromissos cresceram muito mais rápido do que a entrega. Segundo o Net Zero Stocktake 2025, 1.245 das cerca de 2.000 maiores empresas do mundo têm metas de neutralidade, ante 417 em 2020. Apenas 7% atendem a todos os critérios mínimos de integridade, e 385 não apresentam um plano claro para cumpri-las. Na campanha Business Ambition for 1.5°C, da SBTi, cerca de 30% das empresas tiveram o compromisso removido por não apresentarem metas validadas no prazo.

Os padrões estão reagindo. A versão 2.0 do Corporate Net-Zero Standard da SBTi, publicada em junho de 2026 e obrigatória para novas metas a partir de 2028, organiza as metas em ciclos de cinco anos, avalia o cumprimento ao fim de cada ciclo, exige verificação externa para as maiores empresas e pede um plano de transição. Também deixa explícito que créditos de carbono não substituem a redução no inventário. Com isso, a validação da meta passa a ser o início de um ciclo de prestação de contas.

Ao mesmo tempo, o ambiente político ficou mais adverso. A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, a pressão política sobre a agenda ESG e a perda de adesão a alianças voluntárias levaram empresas a rebaixar metas ou a deixar de falar delas. Revisar uma meta diante de novos dados é legítimo, desde que as premissas e os novos prazos sejam explicados. O que compromete a credibilidade da agenda corporativa é abandonar metas sem explicação ou mantê-las nos relatórios sem projetos que as sustentem. Investidores, financiadores, clientes e reguladores estão cada vez mais atentos a essa diferença.

O teste da credibilidade

Uma meta climática ganha credibilidade quando a empresa consegue demonstrar:

  • metas intermediárias de curto prazo, e não apenas um ano-alvo distante;
  • projetos de descarbonização com cronograma, responsável e orçamento aprovado;
  • investimento (CAPEX) coerente com a trajetória declarada;
  • estão ligadas à remuneração da liderança e supervisionadas pelo conselho;
  • reporte anual do progresso, com verificação externa;
  • créditos de carbono como complemento, nunca como substituto da redução;
  • explicação pública de desvios e ajustes de rota.

Sem esses elementos, dificilmente uma meta se sustenta diante de investidores, financiadores e auditores.

Plano de transição

O plano de transição é onde a promessa vira decisão. Ele precisa traduzir a meta em projetos, custos, fontes de financiamento, prazos e responsáveis, integrados ao ciclo orçamentário e à alocação de capital. Num mundo acima de 1,5°C, ele também precisa olhar para dois lados ao mesmo tempo: manter a descarbonização alinhada a 1,5°C e preparar a empresa para um clima mais quente do que esse limite. Para cumprir esse papel, o plano deve passar pelo conselho, pelas finanças e pelas operações, e não ficar restrito ao relatório de sustentabilidade.

Isso exige que a análise de riscos físicos teste cenários de 2°C ou mais, porque ativos, cadeias de suprimento e comunidades do entorno estarão expostos a eventos mais frequentes e intensos, independentemente da meta de cada empresa. Na prática, significa incorporar projeções climáticas de longo prazo às decisões sobre ativos com vida útil longa, revisar premissas de seguro e de continuidade operacional e mapear as dependências críticas da cadeia de suprimento. Como mitigação e adaptação disputam o mesmo orçamento, um plano maduro deixa claro como essa alocação é feita e quais riscos a empresa decide reter.

O contexto reforça essa integração. A COP30 aprovou o compromisso de triplicar o financiamento para adaptação até 2035, e o PNUMA estima que os países em desenvolvimento precisarão de US$ 310 bilhões a US$ 365 bilhões por ano, de 12 a 14 vezes os fluxos públicos internacionais atuais. No Brasil, o Plano Clima Adaptação prevê que os investimentos federais em infraestrutura considerem riscos climáticos em seus contratos. No campo da divulgação, a IFRS Foundation já publicou orientações sobre planos de transição no âmbito da IFRS S2, e quem aderir ao relatório CBPS deve mantê-lo por ao menos três exercícios, com o “pratique ou explique” valendo a partir de 2027 (Resolução CVM 244/2026).

A pergunta que importa

A pergunta que cada empresa deveria responder no próximo relatório não é “qual é a nossa meta?”, mas “o que entregamos neste ano, quanto investimos e o que falta?”. Num mundo que deve ultrapassar 1,5°C, a ambição continua necessária. O que passa a diferenciar as empresas é a capacidade de demonstrar implementação.

A WayCarbon apoia empresas e governos nessa passagem da meta à execução: do inventário e da análise de riscos climáticos ao desenho de rotas de descarbonização, planos de transição, governança e reporte.

Referências

Laise Mondo
Coordenadora de Sustentabilidade at WayCarbon | + posts
Rafael Della Barba
Coordenador de Mudança do Clima at WayCarbon | + posts

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