Muito além do “Pratique ou Explique”: por que continuar reportando pode ser a maior oportunidade estratégica do momento

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A Resolução CVM nº 244 reposiciona o debate sobre reporte de sustentabilidade e clima no Brasil. Ao substituir a obrigatoriedade pela lógica do “Pratique ou Explique”, a norma transfere às companhias de capital aberto uma decisão que vai muito além do cumprimento regulatório: passa a ser uma escolha explícita de posicionamento perante o mercado.

O ponto central é que essa mudança ocorre em um momento em que grande parte das organizações já está colocando em prática os requisitos trazidos pelo ISSB. Os padrões IFRS S1 e S2 não apenas introduzem um novo modelo de divulgação — eles atuam como catalisadores interno, aproximando áreas historicamente desconectadas dentro das empresas e trazendo para superfície riscos materiais ocultos.

As áreas de finanças, riscos, controladoria, sustentabilidade e estratégia passaram a compartilhar a mesma linguagem, os mesmos dados e, cada vez mais, o mesmo objetivo: compreender e gerir riscos e oportunidades relacionados a sustentabilidade e clima que impactam diretamente o valor do negócio.

Esse movimento exigiu investimento, mudança cultural e evolução de processos. Mas, uma vez iniciado, revelou algo mais relevante, a agenda ESG deixou de ser periférica e passou a operar como um verdadeiro vetor de integração organizacional.

Empresas que optarem por manter o compromisso com o reporte não estarão apenas cumprindo uma boa prática. Comunicarão, de forma clara, que:

  • possuem capacidade avançada de mensurar e gerir riscos emergentes e materiais ao negócio, com impacto direto na geração e preservação de valor;
  • operam com governança de dados estruturada, reforçando a capacidade de tomada de decisão baseada em informação;
  • e, principalmente, conseguem integrar estratégia, risco e performance em uma visão financeira consistente de curto, médio e longo prazo.

Por outro lado, a decisão de não reportar deixa de ser silenciosa. Ela transfere à alta administração a responsabilidade de fundamentar publicamente essa escolha perante o mercado. E, nesse novo ambiente, o motivo desta decisão será inevitavelmente avaliado em profundidade, devendo ser claro, específico e fundamentado em fatores como, custo-benefício, maturidade, complexidade técnica, materialidade financeira e estratégia.

O mercado, portanto, não se torna menos exigente, e sim mais seletivo. Não isenta de responsabilidades, diferencia. Pois, na prática, o aparente relaxamento proposto não mitiga riscos reais e não reduz a exposição financeira das companhias.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é que a pressão por transparência não emana apenas do regulador — e, mais do que isso, não se distribui de forma homogênea entre os diferentes setores. O setor financeiro, por exemplo, permanece sujeito à obrigatoriedade de reporte por meio da Resolução CMN nº 5.185, o que cria uma assimetria regulatória relevante.

Somado a isso, instituições financeiras, investidores globais e cadeias de suprimentos já incorporaram a agenda de sustentabilidade em seus processos decisórios. Isso significa que, independentemente do caráter opcional da norma para outros setores, o reporte tende a permanecer como uma ferramenta essencial para acesso a capital e competitividade.

Mas talvez o ponto mais relevante seja outro. A verdadeira oportunidade não está em reportar. Está no que o reporte representa. O reporte não é um produto nem um fim em si mesmo. Ele consolida e reflete a maturidade, o nível de governança e o posicionamento estratégico das companhias. O diferencial competitivo está em demonstrar, de forma consistente, a capacidade de gerar valor em um ambiente cada vez mais complexo e incerto.

No fim, a pergunta relevante não é se as empresas devem ou não reportar. É o que a decisão de reportar — ou de não reportar — revela sobre suas estratégias.

O IFRS S1 e S2 não eram sobre relatório. Eram sobre maturidade. E essa maturidade não se tornou opcional.

Henrique Pereira
COO at WayCarbon |  + posts

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