{"id":12412,"date":"2026-03-26T11:16:34","date_gmt":"2026-03-26T14:16:34","guid":{"rendered":"https:\/\/waycarbon.com\/pt\/?p=12412"},"modified":"2026-03-26T11:16:53","modified_gmt":"2026-03-26T14:16:53","slug":"ifrs-s1-e-s2-no-brasil-panorama-atual-e-perspectivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/waycarbon.com\/pt\/blog\/ifrs-s1-e-s2-no-brasil-panorama-atual-e-perspectivas\/","title":{"rendered":"IFRS S1 e S2 no Brasil: panorama atual e perspectivas"},"content":{"rendered":"\n<p>A publica\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es IFRS S1 e IFRS S2, em junho de 2023,&nbsp;n\u00e3o veio de forma repentina. Ela consolida um movimento que j\u00e1 vinha ganhando tra\u00e7\u00e3o ao longo da \u00faltima d\u00e9cada: a tentativa de trazer os temas de sustentabilidade para o mesmo n\u00edvel de disciplina, consist\u00eancia e relev\u00e2ncia das informa\u00e7\u00f5es financeiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, a maior parte das iniciativas operava sob regimes volunt\u00e1rios, com metodologias diversas e objetivos nem sempre convergentes&nbsp;\u2014&nbsp;&nbsp;O&nbsp;que, na pr\u00e1tica, resultava em relat\u00f3rios de dif\u00edcil comparabilidade e frequentemente pouco conectados \u00e0s implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e financeiras para as organiza\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, os&nbsp;novos&nbsp;padr\u00f5es&nbsp;IFRS S1 e S2&nbsp;emergem&nbsp;com o prop\u00f3sito de estabelecer uma base comum de divulga\u00e7\u00e3o, orientada \u00e0 tomada de decis\u00e3o dos investidores, al\u00e9m de&nbsp;fortalecer a consist\u00eancia, comparabilidade e utilidade das informa\u00e7\u00f5es de sustentabilidade no mercado de capitais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta central dos novos padr\u00f5es \u00e9 clara e ambiciosa: estabelecer uma linha de base global para a divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es de sustentabilidade que sejam efetivamente \u00fateis \u00e0 tomada de decis\u00e3o de investimento, atendendo \u00e0s necessidades dos usu\u00e1rios prim\u00e1rios das demonstra\u00e7\u00f5es financeiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, esse movimento deixou de ser apenas uma tend\u00eancia internacional e passou a integrar formalmente o arcabou\u00e7o regulat\u00f3rio com a publica\u00e7\u00e3o da Resolu\u00e7\u00e3o CVM n\u00ba 193\/2023\u00b9.&nbsp;O cronograma adotado segue uma l\u00f3gica de transi\u00e7\u00e3o gradual: ado\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria a partir de 2024 e obrigatoriedade para companhias abertas a partir de 2027, com reporte referente ao exerc\u00edcio de 2026.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a pr\u00f3pria CVM,&nbsp;a decis\u00e3o reflete o alinhamento do pa\u00eds a uma transforma\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria j\u00e1 em curso em diferentes jurisdi\u00e7\u00f5es.&nbsp;Evid\u00eancias iniciais sugerem a velocidade desse processo. Um estudo conduzido pela Universidade de Oxford mostra que, na Turquia, a maioria das empresas publicou relat\u00f3rios alinhados ao novo padr\u00e3o j\u00e1 no primeiro ano de ado\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, o estudo revela diferen\u00e7as relevantes na forma como conceitos-chave \u2014 como materialidade, defini\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios clim\u00e1ticos e estabelecimento de metas \u2014 foram interpretados pelas organiza\u00e7\u00f5es.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, a ado\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria tende a ocorrer de forma relativamente r\u00e1pida, enquanto o desenvolvimento de maturidade institucional se constr\u00f3i de maneira progressiva.\u00a0Nesse cen\u00e1rio de transforma\u00e7\u00e3o, parte das empresas ainda interpreta a nova agenda como mais uma obriga\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria \u2014 \u201cmais um relat\u00f3rio\u201d, \u201cmais custo\u201d, \u201cmais uma exig\u00eancia\u201d. Essa leitura, contudo, subestima a natureza da mudan\u00e7a em curso.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O que os padr\u00f5es do ISSB prop\u00f5em n\u00e3o \u00e9 apenas um novo reporte, mas uma mudan\u00e7a na linguagem por meio da qual as empresas comunicam seus riscos e perspectivas futuras ao mercado. Pela primeira vez, riscos e oportunidades relacionados \u00e0 sustentabilidade e ao clima passam a ser tratados explicitamente sob a mesma l\u00f3gica aplicada \u00e0 an\u00e1lise de qualquer fator capaz de afetar o valor da empresa: impacto financeiro, materialidade e implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas ao longo do tempo e sob diferentes cen\u00e1rios.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O debate deixa de se concentrar exclusivamente em compromissos institucionais ou posicionamentos reputacionais e passa a se estruturar em torno de risco, desempenho, resili\u00eancia e impactos potenciais sobre fluxos de caixa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Materialidade importa&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>A literatura econ\u00f4mica oferece evid\u00eancias relevantes sobre a rela\u00e7\u00e3o entre materialidade financeira e os efeitos econ\u00f4micos associados ao desempenho das empresas. Estudos conduzidos pela <em>Association of Chartered Certified Accountants<\/em> (ACCA) em 2017 indicam que a ado\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es internacionais de reporte esteve associada, em diferentes contextos, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do custo de capital e \u00e0 melhoria das condi\u00e7\u00f5es de acesso a financiamento \u2014 especialmente quando acompanhada por mecanismos robustos de supervis\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Esse conjunto de evid\u00eancias ajuda a explicar uma mudan\u00e7a gradual no campo da sustentabilidade corporativa. A abordagem tradicional baseada em materialidade de impacto, amplamente utilizada em relat\u00f3rios de sustentabilidade, vem progressivamente dando espa\u00e7o a abordagens orientadas pela&nbsp;materialidade financeira&nbsp;\u2014 ou, em muitos casos, pela&nbsp;dupla materialidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esses <em>frameworks<\/em> oferecem uma estrutura anal\u00edtica que permite \u00e0s empresas\u00a0priorizarem\u00a0riscos e oportunidades com maior potencial de impacto econ\u00f4mico e direcionarem\u00a0para os reportes IFRS aqueles temas com maior relev\u00e2ncia financeira.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nos padr\u00f5es do&nbsp;<em>International&nbsp;Sustainability Standards Board (ISSB)<\/em>, a materialidade segue o mesmo princ\u00edpio aplicado \u00e0s demonstra\u00e7\u00f5es financeiras: uma informa\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada material quando sua omiss\u00e3o, distor\u00e7\u00e3o ou obscurecimento pode influenciar as decis\u00f5es dos usu\u00e1rios prim\u00e1rios dos relat\u00f3rios corporativos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, as empresas devem identificar e divulgar os riscos e oportunidades de sustentabilidade capazes de afetar suas perspectivas financeiras. Embora os padr\u00f5es IFRS n\u00e3o prescrevam uma metodologia espec\u00edfica&nbsp;para essa identifica\u00e7\u00e3o, espera-se que as organiza\u00e7\u00f5es sejam capazes de demonstrar, de forma consistente, o racional utilizado para determinar quais temas s\u00e3o materialmente relevantes para investidores.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disto, com essa vis\u00e3o clara, as empresas poder\u00e3o priorizar recursos, administrar poss\u00edveis perdas e melhorar suas condi\u00e7\u00f5es de acesso a financiamentos, utilizando <em>frameworks<\/em> amplamente difundidos no mercado. As normas IFRS n\u00e3o ditam como as\u00a0empresas\u00a0devem\u00a0fazer o reporte dos seus riscos e oportunidades, mas espera que\u00a0demonstrem\u00a0um racional s\u00f3lido de como chegaram a esses resultados.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">N\u00edvel de ado\u00e7\u00e3o atual e perspectivas futuras&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>No Brasil, o processo de implementa\u00e7\u00e3o das normas encontra-se em est\u00e1gio inicial.&nbsp;Segundo estudos recentes da CVM, uma parcela significativa das empresas est\u00e1 no est\u00e1gio inicial de prepara\u00e7\u00e3o, que pode ser desde a realiza\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3sticos de ader\u00eancia \u00e0 norma, at\u00e9 engajamento das diferentes \u00e1reas envolvidas e estrutura\u00e7\u00e3o do processo de coleta de dados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, empresas como Vale e Renner j\u00e1 sa\u00edram na frente divulgando os padr\u00f5es IFRS voluntariamente&nbsp;ainda em 2025, enquanto outras sete companhias j\u00e1 comunicaram publicamente que ir\u00e3o se juntar \u00e0s pioneiras no reporte em 2026.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento ocorre em paralelo \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de desafios operacionais relevantes. Entre os pontos mais frequentemente mencionados pelas companhias est\u00e3o a necessidade de aprimorar sistemas de coleta de dados, desenvolver metodologias de mensura\u00e7\u00e3o e integrar informa\u00e7\u00f5es provenientes de diferentes \u00e1reas organizacionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Frente a estes desafios, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Companhias Abertas (ABRASCA), fez um apelo formal \u00e0 CVM, ainda em 2025, solicitando uma&nbsp;amplia\u00e7\u00e3o&nbsp;do prazo obrigat\u00f3rio, em fun\u00e7\u00e3o dos diversos desafios que as empresas t\u00eam enfrentado na ado\u00e7\u00e3o da norma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A CVM&nbsp;respondeu atrav\u00e9s do&nbsp;Oficio&nbsp;n\u00ba 1\/2026, refor\u00e7ando que os prazos est\u00e3o mantidos e relembrando que a resolu\u00e7\u00e3o 193 j\u00e1 traz al\u00edvios de transi\u00e7\u00e3o e atenuantes, principalmente para as empresas de menor porte. Ademais, informou que a \u00e1rea t\u00e9cnica da Comiss\u00e3o est\u00e1 considerando ajustes na resolu\u00e7\u00e3o para deixar mais claros alguns requerimentos do IFRS.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fato \u00e9 que este \u00e9 o momento das empresas se organizarem, compreenderem o qu\u00e3o aderentes est\u00e3o \u00e0s normas e partirem para um relato conciso e estrat\u00e9gico dos seus riscos e oportunidades em sustentabilidade e clima.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Este conte\u00fado faz parte de uma s\u00e9rie de cinco artigos mensais que nossos especialistas est\u00e3o preparando sobre as normas. Acompanhe mensalmente na newsletter da WayCarbon. <a href=\"https:\/\/conteudo.waycarbon.com\/newsletter-waycarbon-cadastro\"><strong>Inscreva-se.<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00b9 Resolu\u00e7\u00e3o CVM n\u00ba 193\/2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/conteudo.cvm.gov.br\/export\/sites\/cvm\/legislacao\/resolucoes\/anexos\/100\/resol193consolid.pdf<\/p>\n\n\n\n<p>IFRS FOUNDATION.&nbsp;General Requirements for Disclosure of Sustainability-related Financial Information.&nbsp;Londres, 2023).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>(BRASIL. Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios. Of\u00edcio Circular n\u00ba 1\/2026\/CVM\/SNC\/GNC.&nbsp;Rio de Janeiro, 202).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>(AMEL-ZADEH, Amir et al.&nbsp;Mandatory&nbsp;Sustainability (ISSB) Reporting: Early Evidence from T\u00fcrkiye. SSRN Electronic Journal,&nbsp;2026.)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>(ASSOCIATION OF CHARTERED CERTIFIED ACCOUNTANTS. The economic consequences of IFRS adoption.&nbsp;Londres, 2017).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>(IFRS FOUNDATION. IFRS S1 General Requirements for Disclosure of Sustainability-related Financial Information.&nbsp;Londres, 2023).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>(BRASIL. Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios. Of\u00edcio Circular n\u00ba 1\/2026\/CVM\/SNC\/GNC. Rio de Janeiro, 2026).&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A publica\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es IFRS S1 e IFRS S2, em junho de 2023,&nbsp;n\u00e3o veio de forma repentina. 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